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etapa 14 - sábado 14 de Janeiro de 2006 | Tambacounda > Dakar
  • Ligação 107 km
  • Especial 254 km
  • Ligação 273 km
  • Total  634 km
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Cara a cara

moto

Para lá de si próprio

Henno Van Bergeik,

Henno Van Bergeik é um lutador, duro, sólido, um daqueles que tem a pela curtida pelo sol dos quatro horizontes. Fez o treino dos seus pneus de Amsterdão na Nigéria, passou pela Mongólia, sozinho ao volante de uma velha 505, apenas para ver se o mundo era suficientemente grande para ele. Mas aqui, foi demais. Ou quase.

Bamako, 1h10 da madrugada. Henno chega ao acampamento. Ele adormeceu antes de fazer a ligação. “Já não me aguentava de pé, era um disparate lançar-me a fazer os 450 km que me restavam sem descansarâ€. Agora, Henno junta-se aos seus que o aclamam quando o vêem aproximar-se. Ele está arrasado, desfeito, encharcado. Desde Nouakchott dormiu apenas duas horas no acampamento, repescando, ao acaso, uma cama para aliviar o seu corpo esgotado, tomando um duche para esquecer a fadiga e um pouco de leite de cabra para ganhar forças para voltar a partir. “Desde o dia de descanso, foi infernal. Pensava que já tinha feito a parte mais dura ao chegar a Nouakchott sem demasiados obstáculos, mas estava longe de imaginar o que me esperava. Levei vinte e quatro horas a fazer Nouakchott-Kiffa. Cheguei uma hora antes da partida de Kayes e, mesmo assim, continueiâ€. Quilómetros de areia sob o calor sufocante do sul da Mauritânia, as pistas acidentadas, ladeadas de árvores e de cepos, do Mali. E os problemas mecânicos que se acumulam, torturando, cada dia, um pouco mais a sua velha 500 XT. “Esta moto, para mim, é uma lenda. Foi com ela que Cyril Despres ganhou o primeiro Dakar em 1979. Por isso, tive vontade de confirmar se ela também me consegue levar até ao Lac Roseâ€. Mas a sua velha máquina está a ter dificuldades em cumprir a distância. “Todos os dias tenho que parar à beira da estrada para verificar o nível do óleo, limpar o carburador ou mudar o filtro de ar. Aproveito para dormir alguns minutos. Mas antes de fechar os olhos, asseguro-me que a moto está virada no sentido correcto da pista. Porque quando acordo, estou de tal forma atarantado que seria capaz de partir na direcção errada, sem sequer dar por isso.â€.

Há já três dias que Henno está prestes a render-se. O camião vassoura, ronda à sua volta, como uma ameaça difusa. “Já recusei três vezes subir a bordo. Recuso-me a abandonar, a não ir até ao fim. É mais do que uma simples questão de orgulho. Até hoje, fui sempre até ao fim dos meus desafios “. E o Dakar é um deles.
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Patricia Watson Miller, a herdeira da aventura

O pior é que Patricia ainda sorri. Até ri às gargalhadas. Apesar da sua fadiga, das quedas e dos quilómetros que, dia após dia, martirizam o seu corpo feminino. Ela ri, feliz de cada instante desta longa viagem que a leva de Lisboa a Dakar.

No entanto, nem tudo foi fácil. Uma primeira semana desgastante nas pistas marroquinas, com pedras traiçoeiras que batem na moto ou escorregam debaixo das suas rodas. Ela cai bastante, algumas vezes, com violência. Mas, de cada vez, levanta-se com mais determinação. Ainda mais consciente do que quando partia ao lado do seu pai, Herbert Scheck, no primeiro dos cincos Dakar em que participou. “Aos 22 anos eu era uma pessoa temerária. Ando de moto desde os 8 anos, cortava sempre a direito, certa de que ninguém me podia apanhar. Só pensava numa coisa: participar no Dakar custasse o que custasse e, se possível, chegar ao mais alto lugar do pódioâ€. Resultado, ela desistiu uma vez, mas regressou nos três anos seguintes. Antes de parar, durante quinze anos, o tempo de se casar ter filhos e trabalhar.

Hoje em dia, Patricia é directora de um banco de negócios londrino. Os seus filhos cresceram. E há alguns anos atrás decidiu voltar à sua moto. “Tinha vontade de fazer enduro e ralis mas não para encontrar as sensações de antigamente. Hoje, ando com muito mais calma. Por outro lado, este Dakar não se parece com o dos outros anos. Na verdade, acho que desfruto mais, estou mais serena mesmo quando as coisas correm malâ€. Como aconteceu na etapa de Kiffa. “No inicio, tudo corria bem, não tive grandes problemas com as dunas. Aliás, foi uma bela etapaâ€. Mas ao fim de 550 quilómetros a noite caiu. E no momento em que ligou as luzes, nenhuma funcionava.

Patricia está sozinha. “À noite, sem faróis, no meio das dunas…estás perdida! Tentei fazer parar as motos e os carros, mas em vão. Então lembrei-me de um conselho que o meu pai me tinha dado quando fizemos os nossos primeiros ralis: se tiveres um problema, tira o capacete, que é para os outros verem que és uma mulher. Então, tirei o capacete e o primeiro carro parou. Eles acompanharam-me durante 100 metros antes de me abandonarem. Felizmente, encontrei Laurent Maurice. Ele terminou a etapa comigo. Fartei-me de cair. De todas as vezes, ele levantava a minha mota e dizia-me para eu me colar a ele. Eu, queria dormir nas dunas e acabar a etapa quando o sol levantasse. Ele convenceu-me a ir até ao fimâ€. Chegaram, os dois, às cinco da manhã. Com o tempo, apenas, para dormir duas horas antes de voltar a apanhar a estrada para Kayes.

Mas desde aí, está tudo a correr bem. Patricia encontrou o seu ritmo, o seu equilíbrio neste rali que tanto mudou. Ou, talvez tenha sido ela que evoluiu. “É a primeira vez que tenho tanto prazer a fazer um rali. Estou a vivê-lo de outra maneira. O meu objectivo não é, apenas, chegar a Dakar mas, sobretudo, aproveitar cada instante. Porque aos quarenta anos, já não olhamos para o mundo da mesma maneira. Mesmo se continuamos a procurar a mesma coisa, ultrapassar os meus limites. E, na minha idade, eles não são os mesmos que há vinte anos atrás.â€