Cara a cara
moto

Frans Verhoeven (n°15)
Tem um sorriso resplandecente, ideal para um anúncio de dentÃfrico. Frans Verhoeven é um pequeno empresário da construção civil na área das obras públicas, vive perto da fronteira entre a Bélgica e a Holanda e teve um sucesso estrondoso no ano passado: ficou em 16ª da classificação geral e venceu na categoria de super produção de 450cm3. E se pensarmos que quando chegou a Barcelona não sabia manipular o GPS…O piloto privado da equipa Yamaha Holland, de 39 anos, apresentou-se este ano em Lisboa com ambições renovadas e ainda mais arrojadas. Mas…
Frans decidiu contar as suas “pequenas desventuras†à sombra de um zéquéné – uma árvore selvagem das terras do Sahel, plantado no meio do acampamento de Kayes, no final da primeira das duas etapas do Mali. O calor é sufocante. Bebe água em grandes goladas, retoma a respiração e começa: “Até Ouarzazate, andei bem, estava entre os vinte primeiros, adoro as pedrasâ€. Aliás, foi neste tipo de terreno que o campeão holandês de trial treinou muitas vezes com Richard Sainct, vizinho do seu mecânico em Saint-Affrique (Aveyron). “Na especial de Tan-Tan fiquei sem caixa de velocidades a 45 km da chegada da especial. Pensei que o Dakar estava acabado para mim. Depois de uma boa hora de espera, o meu colega de equipa Marcel Van Drunen passou por mim e rebocou-me até ao fim. Passámos a vida a cair…†No dia seguinte queimou o pé com a gasolina que escorre do depósito furado e que atravessa a bota. Na etapa seguinte, tem um novo percalço com a caixa de velocidades que o obriga a rodar a 50 km/h durante cerca de 200 quilómetros.
Agora está no 30º lugar da classificação geral e o seu único objectivo é chegar ao Lac Rose. Mas não esquecerá tão cedo o drama que quase se desenrolou em frente dos seus olhos, na especial entre Nouakchott e Kiffa: “é possÃvel que tenha sido um erro de pilotagem. Vi passar o Andy a toda a velocidade, ele ultrapassou-nos pela direita e fora de pista. Ele caiu umas centenas de metros à frente. Mesmo que as circunstâncias do acidente não sejam as mesmas, este drama lembra-me a morte de Meoni. Também foi na etapa para Kiffa. Eu ia no pelotão do comando e vi o helicóptero pousar perto do corpo ensanguentado de Fabrizio…†o sorriso de Frans esvai-se. Ele pensa na famÃlia dos concorrentes desaparecidos e também na “famÃlia†do Dakar. E desaparece discretamente sob o sol escaldante.
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Frans decidiu contar as suas “pequenas desventuras†à sombra de um zéquéné – uma árvore selvagem das terras do Sahel, plantado no meio do acampamento de Kayes, no final da primeira das duas etapas do Mali. O calor é sufocante. Bebe água em grandes goladas, retoma a respiração e começa: “Até Ouarzazate, andei bem, estava entre os vinte primeiros, adoro as pedrasâ€. Aliás, foi neste tipo de terreno que o campeão holandês de trial treinou muitas vezes com Richard Sainct, vizinho do seu mecânico em Saint-Affrique (Aveyron). “Na especial de Tan-Tan fiquei sem caixa de velocidades a 45 km da chegada da especial. Pensei que o Dakar estava acabado para mim. Depois de uma boa hora de espera, o meu colega de equipa Marcel Van Drunen passou por mim e rebocou-me até ao fim. Passámos a vida a cair…†No dia seguinte queimou o pé com a gasolina que escorre do depósito furado e que atravessa a bota. Na etapa seguinte, tem um novo percalço com a caixa de velocidades que o obriga a rodar a 50 km/h durante cerca de 200 quilómetros.
Agora está no 30º lugar da classificação geral e o seu único objectivo é chegar ao Lac Rose. Mas não esquecerá tão cedo o drama que quase se desenrolou em frente dos seus olhos, na especial entre Nouakchott e Kiffa: “é possÃvel que tenha sido um erro de pilotagem. Vi passar o Andy a toda a velocidade, ele ultrapassou-nos pela direita e fora de pista. Ele caiu umas centenas de metros à frente. Mesmo que as circunstâncias do acidente não sejam as mesmas, este drama lembra-me a morte de Meoni. Também foi na etapa para Kiffa. Eu ia no pelotão do comando e vi o helicóptero pousar perto do corpo ensanguentado de Fabrizio…†o sorriso de Frans esvai-se. Ele pensa na famÃlia dos concorrentes desaparecidos e também na “famÃlia†do Dakar. E desaparece discretamente sob o sol escaldante.

De-ter-mi-na-do!
Victor Rivera
Imagine um homem um pouco linfático, desengonçado e um pouco tÃmido. Imagine-o com uma moto um pouco velha. A mesma com que fechou o Dakar 2005 e onde figuram apenas um ou dois patrocinadores. E aà está um dos futuros vencedores da prova. É pelo menos o plano de carreira desportiva que Victor, de 23 anos, estabeleceu para si próprio. Ele vive em Caspe, a 100 Km de Zaragoza. Tem, com o seu pai, uma pequena empresa de transportes. As cerejas e o peixe, assim com a fábrica local da Adidas, são suficientes para alimentar economicamente este canto um pouco perdido. Victor sente-se bem na sua terra e foi daà que partiu, sem estardalhaço, à conquista do mundo. Já participou em dois Dakar e acabou um deles em 32º lugar. Os seus argumentos? A sua ciência da navegação. “No rali dos Faraós 2005, numa dada etapa, eu tinha sido o único a ler o road-book. Como todos os outros se enganaram, a etapa foi anuladaâ€.
Quando fala, estica as pernas compridas e o seu ar magricela. Sempre espera para encontrar a palavra certa. Depois deixa o silêncio instalar-se. Victor não tem nada para vender. E, de qualquer maneira, também não teria tempo para isso. É demasiado metódico. “No Dakar, eu chego, tomo o meu duche e como. Estudo o road-book e durmo. Nos pequenos ralis, por vezes, levo toda a tarde a estudar o traçado. Sem me dar conta memorizo os trajectos inteiros. No Dakar, é outra coisaâ€.
Ele podia dar-se a conhecer nos meandros do Dakar, para conseguir obter meios coerentes. “O que me fazia falta,â€, diz ele, “ era ser chamado para uma equipa profissional, mas não tenho nenhum contactoâ€, reconhece. Ele está armado da sua força de vontade e de uma confiança inabalável: “Faço aquilo que sei fazer e, de cada vez, os resultados são melhores.â€. Desde o inÃcio da edição de 2006, ele está regularmente entre os 25 primeiros da etapa. “Continuo a adquirir experiência, e , um dia, sim, a corrida será minhaâ€.
Num meio onde o objectivo é participar, Victor pensa em ganhar. “É o acontecimento que tem mais repercussãoâ€, explica ele, subitamente desejoso de glória. O raid pessoal de Victor, em direcção a uma consagração no Dakar, começou quando ele tinha 21 anos. Nesta sua terceira participação, o piloto aragonês assume sempre e claramente o seu objectivo: ganhar, um dia, o Dakar. Por vezes, as grandes histórias começam assim.
Imagine um homem um pouco linfático, desengonçado e um pouco tÃmido. Imagine-o com uma moto um pouco velha. A mesma com que fechou o Dakar 2005 e onde figuram apenas um ou dois patrocinadores. E aà está um dos futuros vencedores da prova. É pelo menos o plano de carreira desportiva que Victor, de 23 anos, estabeleceu para si próprio. Ele vive em Caspe, a 100 Km de Zaragoza. Tem, com o seu pai, uma pequena empresa de transportes. As cerejas e o peixe, assim com a fábrica local da Adidas, são suficientes para alimentar economicamente este canto um pouco perdido. Victor sente-se bem na sua terra e foi daà que partiu, sem estardalhaço, à conquista do mundo. Já participou em dois Dakar e acabou um deles em 32º lugar. Os seus argumentos? A sua ciência da navegação. “No rali dos Faraós 2005, numa dada etapa, eu tinha sido o único a ler o road-book. Como todos os outros se enganaram, a etapa foi anuladaâ€.
Quando fala, estica as pernas compridas e o seu ar magricela. Sempre espera para encontrar a palavra certa. Depois deixa o silêncio instalar-se. Victor não tem nada para vender. E, de qualquer maneira, também não teria tempo para isso. É demasiado metódico. “No Dakar, eu chego, tomo o meu duche e como. Estudo o road-book e durmo. Nos pequenos ralis, por vezes, levo toda a tarde a estudar o traçado. Sem me dar conta memorizo os trajectos inteiros. No Dakar, é outra coisaâ€.
Ele podia dar-se a conhecer nos meandros do Dakar, para conseguir obter meios coerentes. “O que me fazia falta,â€, diz ele, “ era ser chamado para uma equipa profissional, mas não tenho nenhum contactoâ€, reconhece. Ele está armado da sua força de vontade e de uma confiança inabalável: “Faço aquilo que sei fazer e, de cada vez, os resultados são melhores.â€. Desde o inÃcio da edição de 2006, ele está regularmente entre os 25 primeiros da etapa. “Continuo a adquirir experiência, e , um dia, sim, a corrida será minhaâ€.
Num meio onde o objectivo é participar, Victor pensa em ganhar. “É o acontecimento que tem mais repercussãoâ€, explica ele, subitamente desejoso de glória. O raid pessoal de Victor, em direcção a uma consagração no Dakar, começou quando ele tinha 21 anos. Nesta sua terceira participação, o piloto aragonês assume sempre e claramente o seu objectivo: ganhar, um dia, o Dakar. Por vezes, as grandes histórias começam assim.
