etapa 3 - segunda-feira 8 de Janeiro de 2007 | Nador - Er Rachidia
- Ligação 205 km
- Especial 252 km
- Ligação 191 km
- Total 648 km
Retratos
moto
Ali Machlab: «Ninguém imagina o que se pode suportar fisicamente!»
Ali Machlab recordar-se-á durante muito tempo do 40.º quilómetro da primeira especial do Dakar 2007:
«Tocaram-me no guiador do lado esquerdo, a roda da frente virou e eu voei por cima da moto». Este acidente, que neste caso foi benigno, não causou muitos estragos na moto do número 158. Em contrapartida, os problemas acabavam de começar para o piloto. O seu joelho esquerdo, já ferido na última Baja Aragão, obrigou-o a tomar anti-inflamatórios para poder terminar a etapa. Ao estacionar a sua moto no parque de estacionamento fechado de Portimão, Ali lamentava-se da falta de fair-play do piloto que provocou o acidente: «Nem sequer sei quem é, mas o facto de nem sequer ter parado não lhe fará ganhar o Dakar».
Ali Machlab é assim: sensível a qualquer solidariedade. Sobretudo nesta corrida que para ele é fruto de vários anos de preparação. Começou a seguir o Dakar em moto, para ver, ouvir, ensaiar e acumular a experiência o mais possível. Durante quatro anos reuniu informações seguindo a caravana pelas pistas paralelas, dormindo menos do que os participantes e testando a sua própria resistência física. «Ninguém imagina o que se pode suportar fisicamente», desabafa o corredor. Ali tem vontade de sobra e método. Não deixa nada ao acaso. O Dakar tem uma tal importância para ele, que mesmo a sua participação em 2005 como co-piloto de Carlos Rentero foi uma maneira de se preparar e testar em termos de navegação. Tinha abandonado, juntamente com o seu companheiro de equipa espanhol, na penúltima etapa Kayes-Tambacounda.
Infelizmente a história repetiu-se este ano para Ali. À partida da segunda especial, no Domingo de manhã, a organização pediu-lhe que se apresentasse no hospital de Portimão. Os médicos locais tiveram de lhe retirar uma bolha de sangue e diagnosticaram uma ruptura dos ligamentos do joelho. Mas Ali não se deu por vencido. Depois de ter assinado uma quitação aos médicos que o aconselhavam a abandonar, o piloto apresentou-se para repartir. Surgiu ainda outro contratempo: roubaram-lhe a moto. Enquanto a polícia procurava e encontrava finalmente a moto numa casa abandonada, graças ao GPS, o joelho do infeliz piloto duplicou de volume. Desta vez, o abandono era inevitável. Só lhe faltava encontrar um voo para regressar a Las Palmas, nas Canárias, onde Ali Machlab, que nasceu em Beirute há 30 anos, dirige uma empresa de pesca.
automóvel
Philippe Monnet: O que realmente me incomoda é a navegação!
Poucos veículos atraíram tantos admiradores nas verificações técnicas em Lisboa como os seis buggies monolugar do construtor /condutor francês Philippe Gache. Disponíveis como um pacote chave-na-mão, os seus ganchos estranhos e as suas enormes suspensões atraem logicamente os conhecedores de mecânica, sobretudo os membros mais idosos da confraria de motards, que aspiram a mudar para as 4 rodas num futuro próximo.
Estes monolugares são ainda mais populares numa outra confraria ainda mais exclusiva, a dos fãs do desporto náutico em solitário. Philippe Monnet, detentor de vários recordes do mundo e antigo navegador de ralis raid, é um adepto dos monolugares: « Decidi passar do lugar de navegador para o de piloto por algum tempo e quando ouvi falar do projecto de Gache procurarei logo informar-me. E após duas etapas, não lamento a minha escolha. O veículo é novo em folha. São precisas regulações, mas o veículo é muito agradável de conduzir e eu creio que este conceito vai ter um grande sucesso».
Quando qualquer entusiasta do desporto mecânico pode imaginar facilmente o potencial de uma máquina destas, os velhos “mordidos” pelo rali raid colocarão imediatamente uma questão: «Quando fica preso na areia, como é que faz par repartir se está sozinho?». Por mais estranho que pareça, este pormenor não incomoda o Philippe. «Verei quando isso acontecer. O que realmente me preocupa é a navegação. Talvez pareça estranho ouvir tal coisa de navegador como eu, mas eu não tenho a experiência dos motards de ralis. Não estou habituado a combinar a leitura do Roadbook e a condução. É um autêntico desafio para mim. Quanto ao ficar preso na areia, tenho um cabo de reboque de 80 metros que poderá resolver o problema!»
automóvel
Santiago Anglada: «O espírito de equipa tem a primazia sobre o individualismo»

Arruma o seu Mitsubishi L 200 à borda da pista logo a seguir ao último controlo da etapa e sai do veículo com um pequeno salto ágil. «Santi» Anglada sorri. O automóvel comporta-se bem e o Dakar responde a todas as suas expectativas. Após duas especiais, este chefe de empresa catalão está encantado: «Está tudo a correr bem. É o meu primeiro Dakar e tudo me agrada aqui: o ambiente, a adrenalina destes primeiros dias, etc. Até as verificações me impressionaram».
O piloto do veículo 413 é um apaixonado por tudo o que esteja relacionado com motores. É como se estivesse a viver um sonho acordado. Aos 37 anos, faz assim uma entrada discreta do ponto de vista desportivo (87.º a 1h06 do líder, após duas etapas), mas determinada, no rali raid de Janeiro. O que é surpreendente neste personagem afável e sorridente é o ele ter formado uma equipa com os seus amigos. Em Vic, na Catalunha, onde ele nasceu, criaram uma nova estrutura: Desert Cats. Como Santiago gosta das coisas bem feitas, ele e os seus associados no projecto escolheram um nome com dois significados básicos: o amor do deserto e o amor pela Catalunha.
Mas Santiago Anglade não é somente um apaixonado pelo Dakar. A massa de actividades deste chefe de empresa especializado no sector do betão armado não cessa de surpreender. Não gosta de ficar imóvel, por exemplo. Viajar é um dos seus maiores prazeres, mesmo quando os destinos são difíceis: Okavango, Tanzânia e África do Sul nestes últimos anos. Mas também atravessou o Canadá em moto da neve. Santiago gosta também de ler e de cinema, mas o seu verdadeiro motor é o ar livre. Evadir-se é a palavra-chave para definir este antigo jogador de hóquei no gelo. Outro prazer é empreender. Desert Cats é o seu novo desafio. «Queríamos percorrer o Dakar como autónomos. Utilizámos o nosso dinheiro e entusiasmo para podermos montar uma estrutura com o objectivo de facilitar a participação de outros profissionais no Dakar». Com os dois outros veículos da Desert Cats, o Pep Busquets e Albert Bosch, espera chegar a Dacar só para inscrever na paisagem da prova uma equipa na qual «o espírito de equipa tem a primazia sobre o individualismo»