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etapa 9 - segunda-feira 9 de Janeiro de 2006 | Nouakchott > Kiffa
  • Ligação  30 km
  • Especial 599 km
  • Ligação 245 km
  • Total  874 km
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Cara a cara

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A modéstia intranquila

Jordi Ingles, a modéstia intranquila.

Ele já conhecia Nouakchott. O ano passado comeu uma pizza com o embaixador de Espanha e o seu secretário antes de ser repatriado. Um ferimento na perna esquerda arruinou o seu segundo Dakar. Este ano, foram as dunas que contrariaram o seu projecto de chegar, pela primeira vez, ao Lac Rose. Sábado, nas imediações do km 350, Jordi, que é mecânico em Santa Coloma de Gramanet, caiu nas areias da Mauritânia. “Fiquei debaixo da mota e não me conseguia mexer. Havia um helicóptero que voava à minha volta mas não podia pousar porque não havia um centímetro plano. Então, griteiâ€.

Os recursos mais improváveis têm, por vezes, no deserto, efeitos imediatos. Hattori Yasushi, que estava parado com a sua moto, na duna ao lado, acorreu ao grito de Jordi. “Não pude agradecer-lhe porque não falamos a mesma língua e, então, abracei-oâ€.

Jordi é um simpático catalão que tem a sinceridade das pessoas simples inscrita no corpo. Ele está aqui porque é louco por motos, claro, mas também porque, pouco a pouco, integrou Ãfrica no seu sistema de valores. “A faceta humana fascina-me. Cada vez que aqui venho, compreendo melhor as pessoasâ€. Na sua galeria de fotografias que acompanha as suas aventuras africanas de competição ou de treino, está uma família marroquina que lhe deu água e sabão enquanto ele efectuava uma reparação. E também um habitante do deserto que o conduziu para o caminho correcto antes de voltar para casa, a pé, sozinho no meio da noite.

Jordi vive nos grandes arredores de Barcelona com a sua mulher Sónia que é cabeleireira. Estão à espera de um bebé para o mês de Maio. Jordi não dá nas vistas no Dakar e está completamente só no maior rali-raid do mundo. Apenas ele, a sua Honda XR 450 e a sua mala. Está um pouco aborrecido porque os seus companheiros de acampamento, Amparo Ausina e o seu marido José, assim como Remigio Rovira, abandonaram a prova. No entanto, ele prossegue na sua intenção de ir até ao fim, com um orçamento de apenas 20.000 euros e sem nenhuma assistência.

“O que me agrada é que, finalmente, somos todos iguais no Dakar. Ontem, depois do japonês me ter ajudado, voltei a ficar atascado. Não muito longe de mim estava o Schlesser, de pá na mão.â€

Desportivamente, ele divide a sua jornada em vários pedaços: “Muitos dizem que pensam na corrida, um dia atrás do outro. Eu não, seria muito presunçoso. Cada CP que passo, é uma vitória, e o meu objectivo é chegar ao seguinte†afirma ele. Todos os dias telefona a Sónia: “Foi a condição para eu estar aquiâ€. Ah, e também tem que se barbear…â€Isso, eu já não garanto….â€, diz, quase a desculpar-se, o 88º classificado da geral de motos, amigo, desde há pouco, do motard que está em 83º…um tal Hattori Yasushi.
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Mais longe que a dor

Bruno Raymond (nº46)

Por trás do seu sorriso angélico, adivinha-se uma vontade férrea. Com um ar cansado do esforço, Bruno Raymond aceita, contudo, o pedido de uma televisão. Rebusca a sua mala à procura de uma tenda que, pouco depois, começa a montar, lentamente. Será que ainda tem forças para saborear o prazer de estar entre os motards sobreviventes das dunas da Mauritânia? Em todo o caso, Bruno chegou ao acampamento de Nouakchott, cenário do dia de descanso. Ele fala, agora, do seu segundo Dakar com um sotaque que revela as suas origens meridionais.

“Depois de 20 anos de enduro, banqueteei-me com as duas etapas portuguesasâ€, afirma este nativo de Cahors, colega de liceu de Gilles Algay. Alegria de curta duração porque a segunda etapa marroquina foi bem amarga: “Havia tanta poeira que havia momentos em que não se via nada. Apanhei uma pedra com a roda traseira e perdi o controlo da moto. Fui ejectado a dois metros do chão e caí com toda a força em cima de umas pedras grandes. Pensei que tinha chegado o fim. Levei uns bons cinco minutos a levantar-meâ€. Resultado da pirueta: uma costela partida e um grande hematoma na anca. Na moto, o painel ficou dobrado e o conector da gasolina partiu-se, e precisou de uma hora de mecânica. Aliviado por ter chegado ao acampamento dentro do tempo, ele conta as desgraças do dia ao seu colega, David Frétigné. E é com o piloto oficial da Yamaha que ele faz 20 km da especial entre Zouerat e Atar: “Foi por acaso, cheguei 40 minutos atrasado à linha de partida e adorei ver passar os espanhóis…vi-os a rodar no meio dos tufos secos, foi incrívelâ€. Para esquecer os seus próprios males, outras memórias vêem-lhe à cabeça.

Um ano após a sua primeira experiência no Dakar, ele conta a experiência vivida entre Zouerat e Tichit: “andei 19 horas consecutivas, estava com problemas no carburador, demorei cinco horas a repará-lo porque a bateria explodiu no momento em que pus a moto a trabalhar. E o motor acabou por parar a 30 quilómetros da chegada… tinha os músculos numa tensão extremaâ€. Chegou finalmente ao Lac Rose, no 66º lugar da classificação geral. Uma vitória que lhe provocou emoções contraditórias: “Uma felicidade imensa, alívio e também uma lassidão incompreensível. Durante três meses, não tive vontade de fazer nada, estava totalmente vazio. Julgo que tive uma pequena depressão pós-Dakarâ€. O desejo de voltar ao deserto conquistou-o. Para ultrapassar, mais uma vez, os seus limites. E cá está ele, no deserto. No Dakar.