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etapa 12 - quinta-feira 12 de Janeiro de 2006 | Bamako > Labé
  • Ligação 197 km
  • Especial 368 km
  • Ligação 307 km
  • Total  872 km
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Cara a cara

moto

Espíritos Dakar

Pascal Schandelmayer e Stéphane Clair

Há histórias de amizade que, às vezes, começam mal. Pascal e Stéphane conheceram-se por acaso, à sombra de uma acácia perdida no meio do deserto. Pascal tinha abrigado aí a sua moto, que ficou sem gasolina, entre Nouakchott e Kiffa. E Stéphane apareceu. Poderia ter passado a quilómetros de distância. Podia não ter parado. Mas Stéphane não é desses. Ofereceu metade do combustível que lhe restava a Pascal.

Combinaram encontrar-se no CP1 para atestar o depósito. Stéphane parte à frente enquanto Pascal se assegura do bom funcionamento da sua moto. Alguns quilómetros mais à frente, Stéphane descobre um camião deitado de lado na crista de uma duna. Pára, assinala o acidente, ajuda a equipa a sair da cabina, e chega finalmente ao CP1. Pascal está à sua espera com um ar sombrio. “Não há gasolina. É preciso resolver o problema de outra maneira. Parece que pode haver combustível numa aldeia a alguns quilómetros daquiâ€. É o começo da engrenagem. Eles conseguem apenas 20 míseros litros que não os levarão muito longe. Seguem um pouco mais para a frente à procura de uma hipotética estação de serviço e só a encontram passados 250 km. A sorte está jogada. É impossível reencontrar a pista da especial sem se embrenharem no desconhecido. É impossível voltar ao CP1 porque correm o risco de voltar a ficar sem gasolina. Eles escolhem seguir directamente para a linha de chegada, esperando não ser considerados fora de corrida por terem ido pelo alcatrão. Os dois amigos estão confiantes que a sua boa estrela e a generosidade do gesto de Stéphane serão suficientes para assegurar um bom sucesso. “Não me passava pela cabeça deixar Pascalâ€, diz Stéphane. “E creio que esta situação está dentro dos valores do Dakar. De qualquer modo, logo se verá.â€

Depois de lhes terem aplicado uma penalização à partida de Kiffa, os comissários desportivos, à chegada a Kayes, convocam Pascal e Stéphane que não estão muito optimistas. “à partida os comissários não estavam com muito boa vontade em relação ao nosso assunto…â€. Às 20h30, chega o veredicto, cruel e sem apelo. “Eles não quiseram ouvir nada. Para eles, nós apanhámos o alcatrão. Ponto final. Mesmo que o regulamento seja bem claro, estou desolado…sobretudo porque Stéphane não tinha nenhuma razão para me ajudar…â€. Pascal está sentado na sua mala, de olhar perdido…Stéphane tenta reconfortá-lo: “Não te preocupes, não me arrependo nem um segundo de te ter dado metade da minha gasolinaâ€. Mas Stéphane também está abatido. “ Custa-me não ter conseguido ir mais longe. Fizemos a parte mais dura…mas hoje sei que tenho a coragem e a força para ir até ao fimâ€.

Pascal, que vive em Aubagne, e Stéphane, em Aix-en-Provence, vão chegar a Dakar pela estrada dos veículos de assistência e desfrutar, em conjunto, um pouco do seu sonho comum. Tentarão esquecer a sua decepção. â€Ã‰ claro, para nós, que perdemos qualquer coisa nesta históriaâ€, dizem eles, “mas também ganhámos aquilo que não estávamos à espera de encontrar…†Uma amizade, que crescerá todos os fins-de-semana nos caminhos de pedras de Sainte-Vitoire, entre Aubagne e Aix-en-Provence. É isto, e sobretudo isto, o espírito do Dakar.
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Ver o Lac Rose ou…nada!

Thierry Lamotte

Ele coxeia, de pernas ao léu, através de uma floresta de malas de motos. Tem um joelho magoado, uma luxação no ombro e a moral um pouco em baixo por causa de sucessivas desventuras que lhe acontecem desde que saiu de Ouarzazate. Mas Thierry Lamotte irá até ao Lac Rose com o seu camarada de infortúnio, Alain Hermet, também ele meio desfeito. Thierry prometeu isso à sua mulher e aos seus quatro filhos. Fazer o Dakar…é um sonho com vinte anos. Na época, Thierry lutava com Gilles Algay e Richard Sainct nas competições nacionais de todo-o-terreno. E quando, mais tarde, o seu amigo dentista de Angen, Jérôme Laraignou, lhe propôs tentar a aventura, ele aceitou. Novato na arte do rali raid, ele só testou a sua KTM, em Novembro, nas pistas de Marrocos, para se preparar para aquilo a que ele chama, desde então, o “Infernoâ€.

A noite caiu sobre o acampamento de Kayes, no Mali. É a hora das confidências mas também da mecânica, para um concorrente como ele que não tem assistência. Thierry conta a emoção que sentiu no momento da grande partida em Lisboa. “O Dakar, era para mim, o fazer parte de uma aventura humana extraordinária, um oportunidade de crescimento e de descoberta de mim próprio em situações extremas…não estou decepcionado. O sofrimento dos outros motards, relativizou os meus problemas. Viveu o seu primeiro infortúnio de piloto à chegada a Ouarzazate: o seu pé embateu numa pedra, o joelho torceu, e o resultado foi um ruptura cruzada de ligamentos. Com o corpo magoado, Thierry voltou a cair pesadamente num tufo seco entre Zouerat e Atar. Acabou a etapa o melhor que pôde, com uma luxação na omoplata. À noite, no acampamento, Thierry ficou prostrado sobre a sua moto. “Não tenho vontade de voltar no próximo ano. É demasiado duro. Vi o helicóptero a levar o Andy, isso dá cabo de nósâ€, suspira ele. Desde aí, ele sobrevive andando tranquilamente, ao lado do seu amigo Alain.

Nestas condições, Thierry tem dificuldade em saborear as coisas boas. Mas a sua moral não dá parte fraca. “Fiz demasiadas concessões para chegar aqui e não abandonarei de minha própria vontade. Só paro em Dakarâ€, conclui ele com coragem. Todas as noites telefona à família em Agen para saber se tudo está bem no seu pequeno mundo. E para encontrar a força para ir até ao fim do seu sonho.